Dica de leitura: Uma história do mundo em doze mapas, de Jerry Brotton
abril de 2026
Foto: Divulgação
Na dica de leitura deste mês, o engenheiro Fernando Yogi, do Departamento de Execução de Projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, recomenda a obra Uma história do mundo em doze mapas, de Jerry Brotton. O livro apresenta uma abordagem envolvente sobre a evolução da cartografia ao longo do tempo, explorando como os mapas não apenas representam o mundo, mas também refletem visões culturais, políticas e científicas de diferentes épocas.
“Pode parecer suspeito eu recomendar algo sobre este assunto, dada minha predileção — e até a mania — de estudar tudo relacionado à área de SIG. Mas a abordagem do livro é diferente: ele não tem um conteúdo extremamente técnico e realmente conta a história por trás dos mapas. Fala sobre os principais cosmógrafos, cartógrafos e geógrafos fundamentais para a produção cartográfica. Com o material, descobrimos quem foram, o que produziram, quem e o que os influenciou (principalmente os clérigos), e quem eles próprios influenciaram ao longo do tempo. A obra percorre desde os mapas antigos, passando pelas teorias geocêntricas (Terra no centro do Universo) e heliocêntricas (Sol no centro do Sistema Solar), até os mapas medievais e a era moderna.
Traz a história de Ptolomeu, Al-Idrisi (cujo nome batiza um conhecido software de SIG), Diogo Ribeiro e sua participação na divisão territorial do Tratado de Tordesilhas entre Castela e Portugal. Há também relatos de como a cartografia na Ásia — especialmente na Coreia e na China — estava à frente da europeia durante a Idade Média.
O mais incrível no livro é o trecho dedicado à vida de Mercator: desde a criação de uma grafia mais suave para escrita até a influência de seus mentores e de sua base religiosa no desenvolvimento de seus mapas. Mostra também seus estudos para elaborar uma projeção cartográfica que usamos até hoje e como seu reconhecimento só ocorreu décadas depois, já que seus modelos eram considerados “deformados” para a época — quando, na verdade, sua intenção era facilitar a navegação, permitindo que os navegadores partissem de suas origens e chegassem aos seus destinos.
O livro também discute como a falta de detalhes e diversos erros atrasaram o desenvolvimento da Geografia, além de descrever disputas comerciais entre gráficas que queriam dominar o mercado de impressão — algo visto por várias gerações da família Blaeu, na Holanda.
Há ainda um capítulo sobre os primeiros levantamentos topográficos regionalizados com finalidade militar, realizados ao longo de décadas na França por sucessivas gerações da família Cassini. Foi o primeiro levantamento a usar modelagem matemática com maior grau de acurácia. Mesmo assim, apresentou erros, era caro para o país e precisou ser refeito até que os próprios Cassini finalmente o abandonaram.
Entrando na Geografia Moderna, a disciplina passa a se misturar com finalidades políticas, históricas e econômicas. Com novos propósitos, surgem no início do século XX os Mapas Temáticos, que deixam de focar apenas no “onde fica” e passam a relacionar a cartografia a qualquer outro tipo de informação. O cartógrafo em destaque dessa vez é Peters, cuja projeção — fortemente distorcida — foi duramente criticada por especialistas da época. Ela tinha um forte cunho político, além do técnico, ao tirar a centralização europeia dos mapas tradicionais, diminuindo países desenvolvidos e alongando países em desenvolvimento.
Por fim, já nos tempos atuais, com o avanço das tecnologias de satélites, imageamento aéreo e dos Sistemas de Informação Geográfica, Brotton encerra sua obra comentando o Google Maps e o Google Earth como formas contemporâneas de representar o globo com modelos tridimensionais.
Não que eu tenha deixado de citar algum estudioso ou passagem histórica que seja importante — simplesmente não consigo guardar tudo.”
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