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Gerenciamento de projetos, liderança e propósito: uma entrevista com Christiane Regina Gomes

outubro de 2026
Foto: Divulgação

Projetos de infraestrutura, liderança de equipes, saneamento e até corridas de longa distância fazem parte da trajetória de Christiane Regina Gomes, gerente do Departamento de Gestão e Controle do Interior e Litoral Norte da Sabesp. Arquiteta e urbanista, engenheira civil, especialista em Geoprocessamento e certificada PMP® e CAPM® pelo Project Management Institute (PMI), ela é uma das coautoras do livro Mulheres no Gerenciamento de Projetos – Edição Poder de uma História, Volume I, publicado pela Editora Leader.

Na obra, Christiane revisita sua trajetória profissional e os aprendizados acumulados ao longo dos anos, da atuação em projetos e obras de infraestrutura aos desafios atuais da universalização do saneamento. 

Na entrevista, ela fala sobre liderança, presença feminina na engenharia, gestão de projetos e sobre como a experiência como corredora de longas distâncias e ultramaratonista também influencia sua maneira de enfrentar desafios profissionais.

Como surgiu o convite para participar do livro Mulheres no Gerenciamento de Projetos e que aspectos da sua trajetória profissional você escolheu compartilhar na obra?

O convite para participar de Mulheres no Gerenciamento de Projetos chegou por meio de mulheres ligadas ao PMI-SP e me fez revisitar uma trajetória que, até então, eu nunca havia parado para enxergar como uma história a ser contada.

Quando comecei a escrever, percebi que não queria fazer do capítulo uma sequência de cargos, projetos ou conquistas. Queria falar do caminho. Das experiências que deram certo, dos desafios, das mudanças de direção e, principalmente, do que fui aprendendo ao longo dos anos.

Voltei ao início da minha carreira, à experiência internacional, gestão da qualidade, à aproximação com o gerenciamento de projetos e à chegada ao saneamento, que acabou se tornando uma parte muito importante da minha vida profissional. Foi nesse ambiente, convivendo com obras, equipes e desafios cada vez maiores, que boa parte da profissional que sou hoje foi formada.

E não consegui contar essa história sem falar da corrida. Ela entrou no capítulo porque faz parte de quem eu sou. As longas distâncias e as ultramaratonas me ensinaram sobre preparação e disciplina, mas também sobre algo que considero ainda mais importante: continuar quando estamos cansados e quando a chegada ainda parece muito distante.

Talvez por isso, quando releio o capítulo, não o enxergue apenas como uma história sobre gerenciamento de projetos. Vejo ali a história de uma mulher que foi construindo seu caminho aos poucos, aprendendo a cada etapa e entendendo que não existe uma única maneira de ocupar espaços técnicos e de liderança.

Ao longo da sua carreira, quais experiências mais contribuíram para a sua forma de liderar equipes e gerenciar projetos?

Acredito que minha forma de liderar foi construída muito mais pelas experiências vividas do que por uma fórmula pronta. Trabalhar com projetos de infraestrutura e, especialmente, com obras de saneamento me ensinou que planejamento, prazo, custo e controle são fundamentais, mas que nenhum projeto acontece apenas por meio de planilhas, cronogramas e indicadores. São as pessoas que fazem os projetos acontecerem.

Ao longo da carreira, tive a oportunidade de trabalhar com profissionais de diferentes formações, empresas e áreas, muitas vezes diante de problemas complexos, prazos desafiadores e decisões que precisavam ser tomadas rapidamente. Isso me ensinou a ouvir, buscar diferentes pontos de vista e compreender que liderar não significa ter todas as respostas.

O saneamento também teve uma influência muito grande nessa construção. São projetos tecnicamente complexos, que interferem nas cidades e na rotina das pessoas e cujo resultado, muitas vezes, fica literalmente debaixo da terra. Aprendi que é preciso enxergar além da obra: entender o impacto daquilo que estamos fazendo e o propósito por trás de cada entrega.

E a corrida reforçou muitos desses aprendizados. Em uma prova longa, não adianta gastar toda a energia nos primeiros quilômetros. É preciso estratégia, capacidade de adaptação e constância. Com o tempo, percebi que a liderança também é assim. Há momentos de acelerar, momentos de rever a rota e momentos em que nosso principal papel é incentivar alguém a continuar.

Hoje, acredito cada vez mais que um bom resultado não é apenas entregar um projeto. É também desenvolver pessoas e deixar uma equipe mais preparada depois que passamos por ela.

Como você avalia a presença das mulheres nas áreas de engenharia e gerenciamento de projetos e quais avanços ainda considera necessários?

Quando olho para o início da minha trajetória e comparo com o que encontro hoje, vejo uma mudança importante. Temos mais mulheres na engenharia, no gerenciamento de projetos, nas obras e em posições de liderança. Hoje é muito mais comum entrar em uma reunião técnica ou visitar uma obra e encontrar mulheres participando das decisões.

Isso precisa ser reconhecido. Mas ainda há espaço para avançar.

Para mim, a questão não está somente em aumentar o número de mulheres. Precisamos garantir que elas tenham oportunidades para crescer, assumir responsabilidades, participar das decisões e chegar naturalmente às posições de liderança.

E existe outro aspecto no qual acredito muito: a importância das referências.

Durante muito tempo, determinadas posições foram ocupadas predominantemente por homens. Quando começamos a encontrar mulheres liderando grandes projetos, coordenando obras e assumindo posições de decisão, outras mulheres passam a enxergar essas possibilidades como caminhos que também podem pertencer a elas.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de Mulheres no Gerenciamento de Projetos. O livro não apresenta uma fórmula para o sucesso. Pelo contrário. Reúne mulheres com histórias, origens, escolhas e trajetórias diferentes. E justamente por isso mostra que não existe apenas um caminho.

Ao compartilhar minha história, nunca tive a pretensão de apresentá-la como exemplo a ser seguido. Se alguma mulher, especialmente no início da carreira, ler o capítulo e pensar “eu também posso chegar lá”, já terá valido a pena ter colocado minha trajetória no papel.

Como os aprendizados reunidos no livro se conectam hoje à sua atuação como gerente do Departamento de Gestão e Controle do Interior e Litoral Norte da Sabesp?

Talvez seja uma das conexões mais interessantes quando olho para o capítulo hoje. Quando escrevi minha história para Mulheres no Gerenciamento de Projetos, estava registrando experiências e aprendizados acumulados ao longo de muitos anos de atuação em projetos, especialmente no saneamento. Hoje, tenho a oportunidade de levar grande parte desses aprendizados para um novo momento da minha trajetória, como gerente do Departamento de Gestão e Controle do Interior e Litoral Norte da Sabesp.

Vivemos um período muito importante para o saneamento, marcado pelo desafio da universalização. Isso significa conduzir simultaneamente um grande volume de investimentos, obras e contratos, com prazos desafiadores e, acima de tudo, uma enorme responsabilidade com a sociedade. Nesse cenário, gestão e controle deixam de ser apenas instrumentos de acompanhamento e assumem um papel estratégico para transformar planejamento em entregas concretas. 

E nenhuma transformação dessa dimensão acontece individualmente. Ela depende da integração entre diferentes áreas, conhecimentos e pessoas. Por isso, além de acompanhar resultados, tenho hoje a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento das pessoas que estão comigo e para a construção de uma forma de gestão que permaneça para além de uma entrega ou de um projeto.

Talvez essa seja a principal conexão entre o livro e o momento que vivo atualmente: compreender que a trajetória profissional não é uma linha de chegada. Cada conquista nos coloca diante de um novo ponto de partida.

Hoje, tenho a oportunidade e a responsabilidade de colocar tudo aquilo que aprendi a serviço de um dos maiores desafios do saneamento brasileiro e de contribuir para um legado que permanecerá para as próximas gerações.

E é interessante perceber que, desde a publicação de Mulheres no Gerenciamento de Projetos, novos capítulos começaram a ser escritos — alguns, literalmente. Minha relação com o saneamento ganhou uma nova dimensão, e essa história terá continuidade em Mulheres no Saneamento, no qual compartilho um pouco mais sobre esse setor que marcou profundamente minha trajetória e sobre os novos desafios que passei a enxergar a partir desse lugar.

No fim, talvez seja isso que mais me motive: perceber que ainda há muito a construir, muito a aprender e muitas histórias pela frente — dentro e fora do saneamento.